Sobre discursos e métodos.

O livro mais famoso do Descartes, “Discurso do Método”, traz, em seu primeiro trecho, uma afirmação dificilmente refutável:

“O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada: pois cada um pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar tê-lo mais do que têm.”

Li esse livro já faz algum tempo e, dentre todas as ideias apresentadas lá, essa foi a que mais me marcou.

(Embora eu admita que são outras as que fazem dele um marco para a Filosofia e para a Ciência modernas – bem como para a Filosofia da Ciência -, não só pelo fato de muito do método científico mais difundido desde há muito tempo ainda ser mera reprodução da concepção cartesiana, mas também pela simplicidade e objetividade com que ele expõe seus pensamentos, justamente porque tinha a intenção de que muitas pessoas pudessem lê-lo e entendê-lo – tanto que escreveu o livro em francês, considerada uma língua vulgar naqueles tempos, já que os livros eram escritos em latim.)

Bom… de forma muito pessoal, infiro dessa ideia uma maneira mais inteligente e sutil de dizer que as pessoas (em sua maioria) tendem a acreditar que sempre estão certas, que suas opiniões são as mais importantes e que o seu lado é o melhor.

(Logo vocês saberão aonde quero chegar com isso.)

O que me fez lembrar dessa ideia (e do livro) foi esta entrevista que o Mino Carta concedeu ao Antônio Abujamra (que apresenta um programa chamado “Provocações”, na TV Cultura):

Vamos à ela:

Embora eu não possa dizer que me arrependi de tê-la assistido, desde já, informo aos incautos que a entrevista é de uma platitude incontornável.

A única coisa realmente nova e interessante que o Mino Carta diz é que, durante a ditadura militar, os únicos veículos de imprensa efetivamente censurados foram o jornal “O Estado de São Paulo” e a revista “Veja” (dirigida por ele, à época).

(A meu ver, a explicação para o fato de tal afirmação não ter tido qualquer reverberação em outros veículos de mídia, redes sociais ou conversas de boteco, só pode ser uma destas duas (embora eu tenda a acreditar que a segunda é a mais plausível): ou a Eliane Catanhêde diz a verdade quando afirma que a CartaCapital (leia-se Mino Carta) não tem credibilidade no meio jornalístico; ou… quem assiste ao programa do Abujamra não tem Twitter nem Facebook.)

Sou obrigada a dizer, ainda, que o Antônio Abujamra é um péssimo entrevistador… confuso, chapa-branca e sem graça… faz perguntas estúpidas e afirmações imbecis.

(Confesso que essa constatação me assusta um pouco, considerando que ele também não é um bom ator. Então, a única explicação para essa figura ainda ter algum cartaz… é o fato de que não é de agora que gente sem qualquer talento consegue ganhar notoriedade.)

Quem tiver saco para assistir, verá que mesmo as pessoas mais cultas, viajadas e supostamente inteligentes são capazes de dizer coisas totalmente estúpidas só para tentarem te convencer de que suas (delas) opiniões e crenças pessoais são boas, perfeitas e corretas… Ou seja, só para tentarem mostrar que são providas do mais puro bom senso.

(Por exemplo, há um momento em que ele afirma ser – e sempre ter sido – um dos únicos jornalistas éticos do Brasil! Whatever…)

O Mino Carta escreve muito, muito bem. Mesmo sem concordar com suas ideias, lê-se seus textos com bastante prazer, pois é indiscutível que ele faz muito bom uso da Língua Portuguesa na forma escrita.

Agora… na entrevista em questão… foi duro chegar ao final.

Os fundamentos das suas opiniões são eivados de tosquicede tal forma que ele não conseguiu explicar – clara, concisa e objetivamente – por que, afinal, é tão ferrenhamente contrário à não extradição do Cesare Battisti.

Enfim… apesar de, ultimamente, estar pouquíssimo interessada nos chamados “assuntos sérios”… tive vontade de escrever sobre essa entrevista, à qual cheguei por um link em um site qualquer.

Interessante (ou não) é que, depois que a vi, também fiquei com vontade de escrever sobre um assunto que, há dias, me causou muito incômodo… sobre o qual até pensei em falar aqui, mas me desinteressei naquele momento.

Antes de chegar a ele, quero deixar claro que ainda acho a revista “CartaCapital” muito melhor do que a maioria dos periódicos nacionais.

(Já falei bem da revista aqui e aqui… e do Mino Carta aqui. E embora eu seja declaradamente favorável à (maior parte da) linha editorial da revista, já fiz críticas a ela aqui… e faço de novo neste post.)

Então, mesmo que a revista ainda tenha algum crédito comigo (ou por isso mesmo), me chocou muito a CENSURA a uma das respostas do Ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, em entrevista concedida à Cynara Menezes no último dia 15 de fevereiro:

“A política Sul-Sul é prioridade” | Carta Capital.

Segue o trecho censurado:

CC: Sobre o caso Cesare Battisti: se o Brasil não confia na Justiça italiana, por que mantém acordo de extradição com a Itália?

O  ministro diz ter a respeito uma “resposta-padrão” e, de certa forma, cai em contradição. Fala, obviamente, da amizade que une Brasil e Itália e afirma que o caso Battisti é individual e “está encapsulado dentro de um contexto meramente judicial”. O Estado italiano, que se considera ofendido pela recusa à extradição, vê traído o acordo firmado com o Brasil, ou seja, a própria lei. A ideia de que o caso tem de ser encarado de um ângulo “meramente judicial” confirma que o Brasil não confia na Justiça italiana. Ao menos por enquanto.”

Fiquei tão chocada que cheguei a escrever um comentário no site, algo que raramente faço:

“Gisele. disse:

16 de fevereiro de 2011 às 13:19

Sou leitora da Carta Capital e confio do jornalismo da revista (por enquanto).
É a segunda vez, em poucos meses, que a Carta Capital adota o “padrão-Veja” de jornalismo.
Está começando a pegar mal e a abalar a credibilidade da revista…
Primeiro, foi aquela capa afirmando que o Aécio iria sair do PSDB e fundar outro partido. A “reportagem” se baseou única e exclusivamente em uma declaração do Aécio em um contexto totalmente duvidoso (uma festa na casa de não sei quem).
Mesmo assim, a Carta Capital fez disso uma capa. Mas o fez sem colher depoimento de mais ninguém, sem mostrar um contraditório e, pasme-se, sem perguntar diretamente ao próprio Aécio. Coisa de a(r)mador. Na época, foi devidamente desmentida e desacreditada pelo próprio Aécio (que, obviamente, nunca daria esse gostinho à revista).
Agora, me deparo com essa censura escandalosa à resposta do Ministro Patriota sobre o caso Battisti. Qual foi o problema? A resposta dele foi boa demais? Os argumentos dele em favor da decisão do Lula foram muito fortes?
Seja qual tenha sido a razão da vergonhosa censura, foi um ato inaceitável e a Carta Capital deveria não só publicar o mais rápido possível a resposta integral do Ministro, como tem de se retratar por atitude tão desonesta.
Caso não se dê esse trabalho, a Carta Capital correrá o risco de entrar para o rol do jornalismo de esgoto que domina a cena jornalística do Brasil.”

Bom… apesar dos comentários, todos meio parecidos com o meu, a revista não se retratou, tampouco publicou a resposta do Ministro. A censura permanece, portanto.

Fiquei tão atordoada com isso que fiz outra coisa que não costumo fazer: ler o Twitter das pessoas. E, para meu espanto, ninguém xingou muito no Twitter da Cynara Menezes.

É impressionante a disposição das pessoas em engasgar com moscas e engolir elefantes

Depois desse tempo já passado… e de não ter visto qualquer protesto mais veemente a respeito… ou qualquer menção da parte da CartaCapital aos comentários postados no site da revista… ou qualquer manifestação por parte do Ministro Antônio Patriota (vítima da censura em questão), chego a pensar que devo estar exagerando… Será?

O que sei é que, quando se trata do jornalismo nacional (objeto deste post… não que o internacional seja muito melhor… embora seja), é desalentador e cansativo ter de adotar uma postura refratária em relação a tudo o que se lê, se ouve e se vê.

E, diante disso, de novo, me refiro ao método de Descartes:

“Há muito eu havia observado que, em relação aos costumes, é necessário às vezes seguir opiniões que sabemos serem muito incertas como se fossem indubitáveis (…); mas, como eu desejava então ocupar-me apenas da busca da verdade, pensei que era preciso fazer o contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se restaria, depois disso, alguma coisa em minha crença que fosse inteiramente indubitável.”

Sei que o que vou dizer vai soar meio apocalíptico… mas – neste momento, em relação ao tema deste postsó vejo escuridão.


“It’s gettin’ dark, too dark to see (…) That cold black cloud is coming down”